120º Aniversário de Bento de Jesus Caraça: um lutador pela Liberdade e pela Democratização do Ensino e da Cultura

Bento de Jesus Caraça

No dia 18 de abril de 1901, há 120 anos, nasceu em Vila Viçosa, Alentejo, Bento de Jesus Caraça, filho de trabalhadores agrícolas.

Em tempos de enormes carências e dificuldades para a larga maioria do portugueses, também Bento de Jesus Caraça se fez homem numa realidade dura e com inúmeros contrangimentos. Porém, ainda que em condições muito difíceis, conseguiu prosseguir estudos. A sua enorme envergadura intelectual determinou que, com apenas 18 anos, tivesse sido convidado para Professor Assistente de Matemática, no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras da Universidade de Lisboa e, aos 28 anos, tenha alcançado o grau académico mais elevado de Professor Catedrático de Matemáticas Superiores.

Ao longo da vida, nunca esqueceu as suas origens. Lutou, com outros professores e democratas, contra a ditadura de Salazar. Como represália, em 1946, foi preso pela PIDE, polícia política do regime fascista anterior ao 25 de Abril, e, tal como outros professores universitários, foi demitido do ensino oficial.

 

A escolha da CGTP-IN para patrono da Escola Profissional Bento de Jesus Caraça, por si promovida há mais de 30 anos, foi uma homenagem à sua vida e obra mas, também, uma forma de a escola se apropriar, projetando, o seu alto exemplo cívico e moral. A sua obra constitui uma das principais referências do Projeto Educativo da EPBJC.

 

O pensamento pedagógico de Bento de Jesus Caraça baseia-se em duas noções fundamentais: a cultura integral do indivíduo como um objetivo a alcançar e a defesa de uma “escola única”, recusando que houvesse uma escola “para os ricos” e outra “para os filhos dos trabalhadores”.

 

Numa notável conferência proferida em 1933, intitulada “A Cultura Integral do Indivíduo – Problema Central do Nosso Tempo”, considerava que a questão da cultura de toda a humanidade era o problema central do seu tempo. Pensamento atual, nove décadas  depois!  Definia a “aquisição da cultura como tomada de consciência e elevação constante das mais positivas possibilidades humanas sob o ponto de vista físico, intelectual, moral e artístico”.

 

A cultura não poderia ser, portanto, monopólio de uma elite, mas uma reivindicação para toda a Humanidade, o que pressupõe a emancipação económica dos homens e das mulheres e a eliminação de sistemas económicos baseados na exploração do trabalho assalariado.

 

A elevação da cultura científica dos portugueses foi uma das suas grandes apostas, criando e dinamizando a Biblioteca Cosmos, responsável pela edição de centenas de livros, com muitos milhares de exemplares. O 1º volume desta Coleção, editado há 80 anos, é um livro de enorme atualidade: “Conceitos Fundamentais da Matemática”.

 

No contexto da pandemia por COVID-19, em que milhões de pessoas depositaram grandes esperanças na ciência, nomeadamente em termos da possibilidade da vacinação específica, e em que estamos a assistir, quase em direto, ao desenvolvimento do progresso científico, confrontemos com o que Bento de Jesus Caraça escreveu no Prefácio deste livro sobre as “Duas Atitudes em face da Ciência”:

 

“A Ciência pode ser encarada sob dois aspetos diferentes. Ou se olha para ela tal como vem exposta nos livros de ensino, como coisa criada, e o aspeto é o de um todo harmonioso, onde os capítulos se encadeiam em ordem, sem contradições. Ou se procura acompanhá-la no seu desenvolvimento progressivo, assistir à maneira como foi sendo elaborada, e o aspeto é totalmente diferente – descobrem-se hesitações, dúvidas, contradições, que só um longo trabalho de reflexão e apuramento consegue eliminar, para que logo surjam outras hesitações, outras dúvidas, outras contradições. (…)

 A Ciência, encarada assim, aparece-nos como um organismo vivo, impregnado de condição humana, com as suas forças e as suas fraquezas e subordinada às grandes necessidades do homem na sua luta pelo entendimento e pela libertação; aparece-nos, enfim, como um grande capítulo da vida humana social.”

 

No 120º Aniversário do nascimento de Bento de Jesus Caraça, homenageamos o resistente antifascista, o intelectual e o homem de cultura que tudo tentou para que o povo português tivesse acesso aos mais altos valores do património cultural da humanidade.

 

Por isso, não podemos deixar de chamar a atenção para a sua obra, de grande atualidade, de modo a que possa ser muito mais conhecida por todos, em especial as novas gerações, que, no seu tempo, enchiam os anfiteatros para assistirem às suas lições.